Confissões de uma Intercâmbista

por Rotary Club de São José dos Campos-Satélite

Maria Eduarda (Finlândia)
Maria Eduarda (Finlândia)

Intercâmbio, como contar sobre essa experiência? Vivi tantos momentos e situações, sorri, chorei, perdi, ganhei, fiz amigos, amei, na verdade não deixei de amar e é isso que me traz até aqui.

Como tudo na vida foi necessário vontade para essa viagem acontecer, e aqui estou eu cheia de vontade de ter mais, de fazer todo esse caminho de novo, mas como não posso o transformo em memórias. Durante esse ano eu tentava de todas as formas manter essas memórias para mim, guardá-las para sempre, para que eu pudesse ter esse universo de acontecimentos para o resto da minha vida, mas não é assim que as memórias funcionam. Com o tempo elas se tornam turvas e nossa mente as preenche com cores formando assim uma bela figura abstrata do passado e assim deve ser, lembrarei deste ano como o retrato mais colorido, lindo e inconsistente que eu poderia ter.

Todos nós quando nascemos somos folhas em branco e cada pessoa que passa deixa um traço ou rabisco e nós deixamos o nosso. Quando fui eu era somente marcada pela minha família e amigos mas agora o mundo me deixou mais colorida com traços que formam todo o meu ser, mas não se engane pois ainda não estou completa, olhe mais de perto e verá que essas marcas só formam mais infinitas folhas em branco. E esse infinito não significa o nada, na verdade ele é o vazio, é a distância entre as estrelas, o espaço entre os átomos, é quando tentamos o preencher que tudo se move. Ele foi o meu melhor amigo durante esse tempo, pois é nele que encontramos nossa verdadeira alma, e assim descobri muito mais sobre mim mesma do que jamais poderia imaginar.

Mas o intercâmbio não é somente sobre sua essência, é também sobre a responsabilidade de fazer a própria vida de forma diversa. Não foi fácil entender como as pessoas reagem a como você se porta na presença delas, e leva um tempo até entendermos como nossos atos não afetam somente a nós. Tudo que fazemos terá uma resposta seja do universo, da vida ou das pessoas, então nunca é demais ter o cuidado com cada ação e reação, cada coisa dita e feita, perguntada e respondida, amada e odiada pois existe somente uma primeira vez para tudo mas existem inúmeras últimas vezes. Como o primeiro beijo de quando cheguei lá aos milhões de últimos quando vim, o primeiro adeus de quando parti e os inúmeros últimos de quando voltei.

Houve brigas e discussões, e como eu sempre digo “é a vida ne”, não foi nada que eu não pudesse controlar pois descobri que sou bem mais forte do que pensava. Tudo que aconteceu foi necessário para transformar minha visão e fazer meu âmago se renovar e ter de volta tudo de bom que habitava em mim antes de tudo se desfazer. Agora eu vejo tudo em cores e também os tons de cinza, e entendo que toda essa brincadeira de faz de conta vale a pena. Eu apostei tudo que tinha e ganhei o melhor presente, a vida, de uma forma que ninguém nunca viverá, pois ela foi minha, do jeito que o destino escolheu que seria, escrito em letras douradas esperando a serem cumpridas da forma mais bela e fluente.

Conheci pessoas incríveis e outras nem tanto assim, fui a festas e me diverti muito com meus amigos, descobri que pessoas podem ser realmente más e mesmo assim ainda vale a pena conhecê-las, para saber como o mundo se comporta é necessário viver os dois lados da moeda. Também tive que dizer adeus, e por mais que não seja para sempre ainda dói, pois agora temos nossas próprias vidas tentando descobrir o que fazer com esse pouco tempo no universo, para que não seja desperdiçado. Quando me dei conta de que eu não teria mais aquelas pessoas da mesma forma, quis fugir o mais longe possível, escapar do futuro certeiro que viria consequentemente. Mas não dá para correr, aceitar o fato de que um dia isso vai acabar é parte do processo e é esse ciclo que forma a vida.

Se eu fosse mostrar todas as fotos, contar todas as histórias, demonstrar cada detalhe, passaríamos a eternidade aqui, nessa mesma apresentação e mesmo assim eu não seria capaz de dizer tudo que esse ano foi. O universo em uma viagem, uma vida em um ano, todo conhecimento em uma mente, toda experiência em um corpo, mas ainda há mais… para viver, aprender, desejar, entender, procurar, conhecer, e me pergunto, como existe mais a se fazer? Se pude saborear esse infinito de saber e agora fico sabendo que nunca saberei de tudo e sempre haverá mais nesse mundo vasto que terá a minha admiração pois continuo teimando em ver beleza em tudo.

Nessa situação as vezes a gente quebra a cara, mas isso é parte de aprender que nem tudo é tudo mas que com certeza conseguimos fazer algo que é melhor que nada e que é muito melhor do que a gente esperava. Somos humanos e cometemos erros, mas nossa maior qualidade é aprender a se adaptar e fazer o melhor que podemos com os recursos oferecidos. Se a vida te dá um limão, faça uma limonada ou uma caipirinha e tudo ficará bem no final. Não importa o que os outros digam sobre o que você deve fazer, eu também tive vários narigudos se metendo nos meus assuntos, mas no final a escolha foi minha, ninguém disse que seria fácil ou que eu não iria me arrepender às vezes, só cabe a mim dizer se valeu a pena.

Maria Eduarda P. Siqueira

Intercâmbista 2022_23

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